Após trinta e cinco anos regendo esta prática, e há uns dez sendo passivo nela, reflito algumas coisas sobre a mesma.

Durante o curso de graduação em Psicologia um gabaritado professor nosso insistia em dirigir uma pergunta para a classe: “vocês acham que psicologia clínica é arte ou é ciência?”. As discussões corriam volumosas procurando a resposta. Hoje acredito que ela é as duas coisas. As teorias e técnicas sobre a prática são científicas; mas a vivência do profissional que as aplica durante as sessões depende de uma boa dose de fatores subjetivos que ainda não se conseguiu medir com o rigor que a ciência exige, são pura arte. Como em toda arte é necessário que o artesão conheça o material e as ferramentas com os quais trabalha, mas a execução exige o uso da intuição,  criatividade e percepções subliminares.

Existem várias correntes de pensamento em psicologia. Elas são fruto da filosofia daqueles que as criaram. A psicologia deve muito a filosofia, é uma filha legítima dela, coisa que os psicólogos costumam relegar estudando relativamente pouco desta última. E filosofia é a visão abrangente que um pensador tem sobre a vida e seus fatos. Por isto uma corrente psicológica é tão diferente de outra. Isto sempre me lembrou a estória de um grupo de cegos que foi levado a conhecer um elefante; chegando um a conclusão de que ele era um ser serpentíneo como uma tromba, outro que ele era redondo como uma pedra; e ainda outro que era miúdo como o rabinho do animal total. Tudo isto como a parte do bicho que foi dada a tocar por cada um deles. Cada terapeuta faz a escolha da escola técnica com a qual trabalha, e com as quais entrou em contato durante a graduação conforme os atributos da sua própria personalidade, o brilhantismo do professor específico que lhe apresentou cada uma delas ou  a corrente do terapeuta que frequentou durante a sua formação. E na hora de ser terapeuta usará esta ferramenta com a arte que desenvolverá com a sua própria experiência. Tive alguns pacientes que ao início da terapia comigo quiseram saber qual a minha linha de abordagem teórica: alguns gostavam do que eu referia e outros criticavam negativamente. Hoje sei que o paciente vai relacionar-se com a ‘arte’ do terapeuta e não com a sua ‘técnica’. Ou seja, quando alguém vai procurar psicoterapia o importante é sentir-se bem na presença do terapeuta, independentemente de qual recurso técnico ele usa.

Algum tempo depois de formado eu estudava bastante com um colega da faculdade. Num momento disse a ele que estava me reconhecendo como um terapeuta eclético(nome usado para aquele que usa mais de uma técnica terapêutica). Ele me disse: ”não diga isto aos outros por que as pessoas acham que quem é eclético é por que não tem competência para seguir linha nenhuma”. Imediatamente recuei assustado de minha pretensão, postura que durou alguns anos durante minha prática profissional, até reforçada por algum desprezo que os colegas empregam a quem assim determina-se. Hoje reconheço isto como uma insegurança de aprendiz; e com tranquilidade reconheço-me como eclético por que assim minha personalidade é.

Alguns professores nos ensinavam que as pessoas vão procurar psicoterapia sempre por necessidade, e as que diziam que iam só para se conhecerem melhor iludiam-se a si mesmas. Em nossa cultura o preconceito contra a doença mental faz-nos evitar a busca da psicoterapia. Em outros países de maior cultura isto é mais comum. Também acontece de algumas pessoas que começam a psicoterapia com propósitos mais modestos acabam descobrindo grandes coisas que precisam mudar em sua personalidade. O critério freudiano de normalidade da personalidade parece-me um bom orientador: ‘ é normal a pessoa que ama e trabalha’. E a ideia existencial de que ‘a maior parte das pessoas mais próximas não reclamam do seu modo de ser’ pode ser um bom complemento. Lembremo-nos da sabedoria que pode estar embutida na liturgia católica da confissão. Aí pode estar em germe a necessidade que todo ser humano tem de ter alguém com quem pode falar de coisas que causariam horror a maioria. E aí nos lembramos que o psicólogo americano Carl Rogers teve a competência de qualificar os dois alicerces fundamentais de uma psicoterapia: a aceitação incondicional e o sigilo profissional. A necessidade destes fundamentos também justifica o fato de um terapeuta não poder fazer a terapia de um parente ou alguém muito próximo a si; bem como de um amigo poder ouvir o ‘desabafo’ de outro, mas não de fazer sua psicoterapia.