Alguns fatos costumeiros guardam segredos sobre os quais vale a pena pensar. Minha filha precisou de uma série de exames de laboratório; e, ao preencher a solicitação, o médico avisou na hora: ‘a minha letra é ruim, mas se precisar de esclarecer fale com a secretária que ela está acostumada’. Realmente, a dedicada funcionária do consultório fez uma lista com sua letra, que deveria ser um tipo de ‘dicionário’ para acompanhar o inexpugnável pedido médico, anexado a ele; embora um dos exames nem mesmo ela conseguira decifrar. Letra de médico já era ruim quando eu era prático de farmácia em 1970, e já ali tínhamos como dado que aquilo deveria ser assim mesmo, chegando a ser uma qualificação especial quem naquele ramo conseguia compreender o que o médico escrevera. Voltando para o caso da minha filha, após a decifração da tal secretária, ainda faltou um exame que nem ela conseguiu decifrar. Mesmo assim fomos até o laboratório na esperança de que algum atendente experimentado tivesse uma expertice maior. Lá conseguiram ler todos…, menos um, aquele que a secretária do médico já falhara na interpretação. A atendente pediu um tempo enquanto consultavam o supervisor de atendimento. Depois de longa espera chamaram minha filha para avisá-la que seria necessário consultar o médico chefe do laboratório sobre a tal escrita indecifrável. Mais um tempo de espera e realmente conseguiram; e minha filha pode fazer todos os seus exames. Além de mais um fato deste, provavelmente idêntico a milhares, a sociedade brasileira tem por fato dado que ‘letra de médico é incompreensível’. Por que isto perdura desta forma? Poder-se-ia propor uma cadeira de caligrafia nas faculdades de medicina…. Mas a psicologia social nos explica que o problema é mais profundo. O ser humano teme a morte. E a medicina como ciência, embora conte com desenvolvimento espantoso ainda não conseguiu espantar este fantasma da nossa existência. E para todo o mal que nos assusta a nossa mente conta com o que se chama de ‘mecanismo de defesa’. Um deles nos fez acreditar que o médico é um deus, e que enquanto estamos sob seus cuidados estamos livres do fantasma da morte, o que não passa de uma ilusão criada por nossa mente para podermos ter um pouco mais de calma frente à constante ameaça que é nossa existência. Para dar mais validade a nossa defesa psíquica criamos todo um círculo mágico ao redor da medicina. De maneira que não podemos nascer, morrer ou adoecer sem atestados médicos. O grande problema das ilusões é quando esquecemos que elas não são realidade. Uma das realidades que esquecemos é  que é uma falta de respeito escrever um documento numa caligrafia que quase ninguém consegue ler. Outro problema, agora para os médicos, é quando eles acreditam nesta ilusão, a de que são deuses. Aí eles sofrem muito quando acham que o poder da vida esta realmente em suas mãos e os fatos da vida atacam-lhes com a realidade; não à toa há até alguns anos atrás a categoria médica tinha um número maior de distúrbios como alcoolismo e suicídio que a média da população. Então, escrever algo que quase ninguém lê é aceito por todos como se fosse a caligrafia de um deus; no contra-jogo das ilusões em que nos defendemos talvez um médico que fizesse seus documentos com letra pedagógica fosse desconsiderado por seus pacientes… . Cuidemos para nossas ilusões não nos desvirtuarem do caminho da vida.